A reinvenção das escolas tem que começar
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A reinvenção das escolas tem que começar

O modelo de ensino atual já não faz mais sentido para nenhum dos atores envolvidos no processo educacional. Está mais do que na hora de sairmos do imobilismo e começarmos, mesmo que aos poucos, a transformação necessária

Ana Maria Diniz

30 Junho 2016 | 16h17

Não dá mais para esperar. Temos que começar a mudar tudo nas escolas!

Desde que comecei a circular pelo mundo da Educação, há duas décadas, ouço falar da necessidade de se reinventar a escola tradicional. Mas hoje é diferente: o assunto já é consenso, está virando emergência. O modelo atual não faz mais sentido para nenhum dos atores envolvidos no processo educacional – governo, acadêmicos, professores, alunos e pais.

Precisamos sair do imobilismo. E a reforma da escola, ao contrário do que muitos pensam, pode começar por qualquer ponta. Cada um desses atores que citei acima tem o poder de chacoalhar o status quo e começar a fazer as coisas de outro jeito.

Algumas poucas escolas viraram tudo do avesso e hoje trilham um caminho diferente. Dentre essas instituições, há as que já nasceram com propostas mais radicais, como a High Tech High, da Califórnia ou a conhecida Escola da Ponte, em Portugal, e outras em que a transformação se deu de forma mais orgânica, como a escola bilíngue Wish, em São Paulo.

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Meu propósito neste post não é discorrer sobre o que uma cada dessas escolas fez, mas sumarizar algumas estratégias pontuais, já testadas e com bons resultados, para começar essa transformação. Quem tiver coragem de implementar alguma dessas ou outras abordagens sem dúvida passará por percalços. Haverá vários obstáculos na busca por uma Educação compatível com o século em que vivemos e com o que está por vir, capaz de formar pessoas autônomas, seguras de si e em sintonia com seu entorno e com o planeta.

A ousadia, porém, valerá a pena. Quem estiver disposto a enfrentar divergências, desconfiança, burocracias e interesses de toda a ordem sairá com a recompensa de ter seus alunos muito mais engajados e interessados no aprender.

Começar, dar o primeiro passo, quebrar o imobilismo é o mais difícil. Estamos em meio a uma passagem de eras, um período intenso, disruptivo, no qual nossas ações e vontades parecem presas numa espécie de looping – ao mesmo tempo em que os acontecimentos nos empurram para o futuro, as tradições nos puxam de volta, nos amarrando ao passado.

Mas é possível e preciso agir– e já!  As transformações, nos ensina a História, começam pelas beiradas, de forma despretensiosa, até que, num momento “x”, se espalham, viralizam.

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O processo pode começar pela saída da inércia de qualquer agente do sistema – o secretário de Educação, o diretor da escola ou o professor. Hoje quero me concentrar naquilo que o professor pode fazer para criar um círculo virtuoso com a adoção de práticas simples em sala de aula. Isso já está acontecendo no Brasil e no exterior com bons resultados. Tais como:

Filmar a própria a aula. Eis uma tática incentivada por Katherine Merseth, diretora do centro de formação de professores de Harvard e uma das maiores especialistas em educação no mundo. Permite ao professor fazer avaliações, com a ajuda de colegas, do seu desempenho e das reações dos alunos. E pode ser feita por qualquer pessoa, de um celular.

Apostar em aulas invertidas. Também chamadas de aprendizado antecipado, elas têm se mostrado uma das principais alternativas às aulas expositivas, nas quais o professor expõe o conteúdo em sala, tira dúvidas e encomenda lições de casa para reforçar o que foi ensinado. Nesse método, os alunos primeiro se familiarizam com conceitos em casa, por meio de leituras ou vídeos. Dessa forma, aproveitam o momento escolar para fazer atividades, com a colaboração de professores e colegas. Estudo realizado com alunos do primeiro ano do ensino médio do estado de Michigan, Estados Unidos, mostrou que a adoção de aulas invertidas diminuiu a reprovação em inglês de 50% para 19% e em matemática de 44% para 13%.

Encorajar o questionamento, a discussão e a dúvida. Os alunos deixaram de ser meros espectadores e receptores de informação há muito tempo. Insistir em métodos que inviabilizam discussões e debates para ensinar crianças com acesso a uma quantidade enorme de informações só aumenta o desinteresse pelos estudos. Reforce também que ter dúvidas e expô-las publicamente é um sinal de força, não de fraqueza. Elogie quem pede ajuda.

Abrir espaço para a colaboração. Ninguém achará seu lugar na profissão e na vida daqui para frente se ficar acorrentado a valores de décadas atrás, como vencer a qualquer custo e agir por conta própria. Atitudes como essas funcionam mais num mundo onde o compartilhamento e as redes se impõem como tendências sem volta. A colaboração e sociabilidade fazem parte das chamadas competências socioemocionais, fundamentais para a vida no século 21. Pesquisas realizadas pela OCDE mostram que alunos com essas habilidades aprendem um terço a mais em um ano letivo do que alunos com tais competências menos desenvolvidas.

Motivar. Motivar. Motivar. Explique aos alunos, quantas vezes for necessário, que notas são importantes, mas não determinam quem você vai ser e quanto de sucesso. Identifique os talentos de cada um e reforce-os, individual e publicamente, com atividades específicas e elogios. E deixe bem claro aos seus alunos que não há problema algum em errar e que errar é algo comum e permitido a todos, inclusive você, professor. A autoestima elevada, outra competência socioemocional, também impulsiona o desempenho dos alunos, segundo a pesquisa da OCDE.

Contar histórias em vez de despejar informações. Ninguém resiste a uma história bem contada. Incremente um punhado de aventura, emoções e um pouco de humor a um acontecimento chato qualquer, como, por exemplo, a Revolta do Sal do Brasil-Colônia, que mágica acontece. Incentive os alunos a criar novas narrativas, a partir pesquisas e entrevistas.

 

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