A reforma do Ensino Médio não podia mais esperar
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A reforma do Ensino Médio não podia mais esperar

Há anos se discute a reforma do Ensino Médio: adiá-la significaria comprometer ainda mais uma geração de jovens que representa o futuro do nosso país

Ana Maria Diniz

26 Setembro 2016 | 14h23

Não é preciso ser especialista em Educação para saber que há muito tempo precisávamos reformar o Ensino Médio de nosso país. Qualquer pai e mãe de jovens entre 15 a 17 anos que frequentam as escolas brasileiras sabem que é impossível fazer com que seus filhos se interessem pelas 13 matérias que lhes são ensinadas durante três anos de forma completamente superficial, fragmentada e desconectada da realidade. Ou seja, sem o menor atrativo. Ele vai na escola para cumprir tabela.

A reforma do Ensino Médio, anunciada semana passada pelo governo, não podia mais esperar. Adiá-la seria comprometer ainda mais uma geração de jovens que representa o nosso futuro.

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Muito se tem discutido sobre a forma com que isso foi feito, via medida provisória. Num mundo ideal, este tipo de mecanismo só deveria ser usado em situações extremas. A meu ver, o ministro da Educação Mendonça Filho agiu de forma corajosa ao propor um plano de reformulação nessas condições. Assim como o presidente ao sancioná-la.


Nada disso, é bom reiterar, foi um ato voluntário do novo governo, uma iniciativa sem fundamento tomada à revelia da sociedade. O conteúdo da MP vem sendo discutido há anos com especialistas em Educação e com outros atores envolvidos no processo educacional e está em linha com os debates que levaram ao Plano Nacional de Educação e à Base Nacional Comum Curricular, em construção. E haverá, ainda, um longo caminho até a implementação, onde as questões em aberto poderão ser debatidas e aperfeiçoadas pela sociedade.

 Ao propor a flexibilização do currículo e um agrupamento por áreas de interesse do aluno em Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Ensino Técnico, o governo possibilita que os jovens estudem aquilo que tem mais afinidade – o que mais vai servir para a sua vida futura. Acho muito saudável que cada jovem aos 14 ou 15 anos passe a refletir sobre o que gosta mais, o que lhe instiga a curiosidade e o que tem facilidade de aprender. Este olhar para si o ajudará a encontrar o seu caminho de forma mais autônoma e consciente.

É uma pena que a Educação Física possa ficar de fora do currículo central, pois os valores do esporte e a importância de desenvolver o corpo nesta fase da vida são um alicerce fundamental do desenvolvimento dos jovens em sua totalidade. Porém, aqui também é importante frisar, a presença ou não dessas matérias ainda será tema de discussão, visto que, à exceção de Português e Matemática, todo o conteúdo restante terá de estar em sincronia com as determinações da base nacional.

Para reduzir a falta de professores nesta etapa, situação que tende a se agravar com a implementação do ensino profissionalizante, a medida provisória prevê outra flexibilização: a da formação docente. Isso permite que profissionais com “notório saber”, sem formação em Pedagogia ou licenciatura, assumam a sala de aula.  Este tema merece atenção especial. É preciso garantir que esses profissionais dominem o conhecimento. Acredito que a formação docente é o ponto crucial de um ensino de qualidade. Professores precisam ser muito bem preparados, frequentar faculdades de Pedagogia de excelência, conectadas com a escola, que permitam a experimentação do dia a dia da sala de aula ainda durante a graduação.  Os notórios também deveriam ser preparados desta forma.

Também faz parte da reforma a ampliação da quantidade de horas que os jovens ficam nas escolas, o chamado período integral. Eis um ponto que merece destaque. Pesquisas comprovam que, que se o jovem passar mais tempo na escola, ele aprende mais e pode ter uma educação de mais qualidade. Mas isso só acontece se o modelo de escola integral não for apenas uma extensão de horas na escola. Sem projeto pedagógico e um modelo muito bem elaborado que faça sentido e agregue valor para o menino, não se vai a lugar nenhum.

Temos bons exemplos no Brasil de como isso pode funcionar.  O modelo de Pernambuco, que inspirou as escolas de período integral de São Paulo, é o que eu mais conheço e acredito. Ele traz um tripé de sustentação fundamental para que dê certo:

– Um currículo bem pensado onde há espaço para o protagonismo do aluno no processo de aprendizado;

– Professores que entendem o modelo pedagógico e são de dedicação exclusiva, portanto desenvolvem um vínculo e um compromisso muito maior com os alunos e com a escola;

– Um projeto de vida para os jovens que começa a ser arquitetado e desenvolvido desde o primeiro ano do EM com o objetivo de provocar a reflexão e a capacidade do jovem de projetar e ir buscar o seu futuro.

Eu tive o privilégio de viver a implementação do modelo de escola integral no Estado de São Paulo e sei que este modelo aumenta e muito a atratividade e o interesse dos jovens por aprender. É disso que precisamos fazer deixar a escola interessante e reacender a curiosidade de nossos jovens pelo saber!

De qualquer forma, acredito que hoje estamos melhor do que há uma semana. Depois da promulgação da medida provisória 746/2016, temos ao menos uma esperança e um direcionamento para trabalharmos em prol de melhorias na Educação dos nossos jovens.