A oportunidade de fazer diferente
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A oportunidade de fazer diferente

Somente um processo muito responsável e cuidadoso de implementação, alinhado com as demandas e necessidades reais de alunos, professores e escolas, garantirá a viabilidade e a efetividade do novo Ensino Médio

Ana Maria Diniz

07 Setembro 2017 | 10h49

Participei esta semana, em evento realizado pelo Estado, de uma discussão riquíssima sobre o novo Ensino Médio com várias pessoas envolvidas em Educação, entre as quais Maria Helena Guimarães, secretária executiva do MEC, Eduardo

FÓRUM ESTADÃO

Deschamps, do Conselho Nacional de Educação, Priscila Cruz, do Todos Pela Educação, e Ricardo Henriques, do Instituto Unibanco.

Esse debate foi extremamente importante porque, apesar de o novo Ensino Médio ter sido anunciado no ano passado e sancionado em fevereiro pelo governo, ele está longe de ser uma realidade. Inúmeras mudanças, tanto de ordem estrutural quanto cultural, serão necessárias para que a proposta deixe o universo das ideias e aterrize nas salas de aula de forma efetiva. Para tal, ela tem de ir ao encontro dos anseios, necessidades e diferentes realidades de alunos, professores e escolas do nosso país. Isso é difícil, é complexo, mas é possível!


A reforma desta etapa do ensino no Brasil é uma questão emergencial. Somos o único país do mundo onde o aluno tem 13 disciplinas fixas e obrigatórias para estudar e nenhuma possibilidade de escolha. Uma tremenda “jabuticaba”, como pontuou Maria Helena Guimarães, um sistema que está a anos luz dos interesses dos jovens e da vida prática neste século.

As consequências disso se escancaram nas estatísticas: 78% dos jovens das escolas públicas e particulares do país terminam o Ensino Médio sem saber o esperado em Língua Portuguesa e 90,7% deles o concluem sem os conhecimentos necessários em Matemática. Resultados assim repercutem por toda a vida de uma pessoa, minando suas chances de viver uma vida plena, além de sabotar qualquer intenção de transformar o Brasil num lugar promissor.

A reforma, no entanto, vai num bom sentido: de acordo com a proposta, os alunos terão de cumprir um currículo obrigatório de 1 800 horas, com forte carga de Língua Portuguesa e Matemática, além de outras a serem definidas pela Base Nacional Comum Curricular até o fim do ano. Mas a grande inovação vem das 1 200 horas adicionais que comporão o currículo flexível. Nele, as habilidades e competências a serem adquiridas se distribuirão em áreas como ciências exatas, ciências humanas e ciências da natureza, além da opção de uma formação técnica e profissional.

Uma reforma dessa magnitude, hiper necessária, mexe com muitas coisas da nossa Educação e, por isso, levará tempo para ser implementada de forma plena. Estima-se que ela só esteja de fato nas escolas a partir de 2020. Até lá, uma série de coisas terá de mudar, entre as quais:

A formação de professores. Os professores precisarão ser formados de forma a incorporar as mesmas competências que os estudantes terão de dominar, a serem definidas pela BNCC.

Os processos de avaliação, que deverão avaliar, além do tanto de conteúdo que o aluno consegue absorver, a sua capacidade de resolver problemas, de ser criativo, de colaborar e de ser resiliente, entre outras das chamadas competências do século 21.

Os materiais didáticos e objetos de aprendizagem, que terão de dar suporte a um modelo flexível e transversal de ensino.

O modelo de carreira e contratação dos docentes.
 Como disse Eduardo Deschamps, a divisão por disciplina é o átomo que garante o contrato do professor. Sem mudar esse contrato, não se muda nada no Ensino Médio.

Outro ponto importante, que torna tudo ainda mais complicado: a reforma só vai dar certo se o jovem ingressante no Ensino Médio vier de um Ensino Fundamental mais forte. A nova proposta é fundamentada numa alta expectativa para os estudantes, o que eu acredito que está certo e muito em linha com o que estão fazendo países de primeiro mundo competentes em Educação, como o Canadá e a Austrália. Mas é preciso tomar cuidado para que essa barra lá em cima que a Educação Brasileira começa a colocar como objetivo não gere mais desigualdade no sistema.

Para garantir que essa iniciativa tão bem-intencionada prospere, os estados, por meio dos Conselhos Estaduais de Educação, devem assumir o papel de protagonistas, trabalhando de forma exemplar na condução de uma implementação muito responsável e cuidadosa do que está sendo proposto. Isso dependerá da geração de modelos de colaboração em cada território a fim de facilitar a oferta e a demanda educacional. Um município pequeno, por exemplo, pode se juntar a outro para definir trilhas de formação técnica de acordo com as atividades econômicas da região. Já cidades com uma vocação mais clara, como o turismo, podem oferecer cursos profissionalizantes nessa área. Os mais fortes em saúde podem fazer o mesmo dentro desse contexto. E assim por diante.

O fato é que não há uma só formula e um só modelo para essa implantação. Os estados, portanto, terão que dispor de muita criatividade para encontrar suas melhores soluções e, ao mesmo tempo, ter muito rigor para manter a qualidade e assegurar que os jovens terminem o ciclo de Educação Básica com uma formação que lhes permita serem bem-sucedidos na profissão e na vida.

Temos, enfim, uma proposta moderna e consistente para ajudar a transformar a nossa Educação e o nosso país. A oportunidade de fazer algo diferente – e melhor – está em nossas mãos. Cabe a todos nós – governantes, educadores, professores, alunos e sociedade em geral – não deixar que ela escape.