A linguagem molda nossa visão de mundo
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A linguagem molda nossa visão de mundo

Estudos mostram que não é o quanto se fala, mas como se fala, o que realmente importa para o desenvolvimento do cérebro infantil e para o sucesso das crianças e dos jovens na escola e na vida

Ana Maria Diniz

22 Março 2018 | 10h37

A psicóloga americana Carol Dweck, da Universidade de Stanford, tornou-se mundialmente famosa ao provar, cientificamente, que o sucesso escolar de crianças e jovens está atrelado a dois tipos de mentalidade: a fixa e a de crescimento. Alunos com mentalidade fixa se paralisam diante de obstáculos e deixam de progredir. O segundo grupo entende que podem aprender com os erros e vai tentando caminhos alternativos para superá-los. O estudo da psicóloga também revelou algo importantíssimo, mas pouco mencionado: mudanças simples na maneira de falar com os alunos têm uma influência enorme na percepção das crianças sobre si mesmas e sobre o aprendizado.

A linguagem molda nossa visão de mundo. E uma das principais maneiras de se fomentar uma mentalidade de crescimento é a forma como falamos em casa com os nossos filhos ou na escola com os alunos – e isso inclui a forma como damos feedback e como nos referimos às pequenas derrotas diárias. Por exemplo, quando seu filho mostra a você uma lição de matemática errada, ao invés de dizer que está tudo errado e que ele não entendeu nada, diga “não tenho certeza deste resultado, me mostre como chegou nele”. Não se trata de só querer passar a mão na cabeça e de evitar dizer coisas mais duras, mas de escolher palavras que estimulem o comportamento investigativo com intenção e cuidado. O mesmo pode ser feito nas salas de aula.

Como revela Dweck em seu novo livro Mindset, lançado no ano passado, e em outros artigos recentes, algumas palavras são quase mágicas nesse sentido. Se um aluno está tendo dificuldades, seja acadêmica ou emocional, ofereça “apoio”, não “ajuda”. Ao falar “apoio”, enfatizamos a ideia de que os alunos têm capacidade de melhorar suas próprias vidas, de que não estamos ali para salvá-los, mas para dar a eles suporte em seu próprio processo de mudança. Outra palavra que deveria fazer parte do dia a dia do educador é “escolha”, acredita Dweck.  Usá-la, mais do que qualquer outra, dá ao aluno o senso de controle sobre sua vida.

Conversar com as crianças, desde a mais tenra idade, ajuda no desenvolvimento. Todo pai e mãe sabe disso, é quase inconsciente. Por isso falamos tanto com nossos filhos, mesmo quando ainda são bebês. Mas mesmo isso tem de ser repensado, mostram as pesquisas em neurociência. Um estudo novíssimo do MIT revela que não é o quanto se fala, mas como se fala com as crianças o que realmente importa para o desenvolvimento do cérebro. Ou seja, não adiantam tentar estimular as crianças falando o máximo de palavras possíveis ou as estimulando com apps e brinquedos para expandir o vocabulário infantil o mais cedo possível. O que realmente importa, afirmam os cientistas, é envolver as crianças em turnos de conversação, ou seja, no bom e velho bate-papo.

Em um estudo com crianças entre 4 e 6 anos de idade, os pesquisadores do MIT descobriram que esse tipo de conversa de vai e vem altera positivamente o cérebro da criança – impulsiona o desenvolvimento cerebral e as habilidades de cognição e linguagem do cérebro infantil, segundo atestou uma série de exames de ressonância magnética realizados nas crianças investigadas. E isso acontece independentemente do nível socioeconômico e de escolarização dos pais.

A descoberta representa uma importante reviravolta no que sabemos sobre linguagem e desenvolvimento cerebral. Em 1995, um estudo estabeleceu que as crianças das famílias mais ricas ouvem cerca de 30 milhões de palavras a mais aos três anos do que as crianças das famílias mais pobres, o que poderia favorecer o sucesso dessas crianças na escola e na vida futuramente. Mas essa “lacuna de 30 milhões de palavras” não seria a verdadeira causa da diferença no sucesso entre crianças ricas e pobres no futuro, segundo os cientistas do MIT, e sim a falta de diálogo.

O que me empolga, tanto no trabalho de Dweck quanto na pesquisa do MIT, é saber que impactar positivamente a vida de milhares de crianças é possível, de um jeito muito mais fácil e acessível do que se imagina. Vamos nos aprofundar nessa questão da linguagem e seu poder nos próximos blogs!