Tempo de se reinventar

Tempo de se reinventar

Colégio Albert Sabin

29 Agosto 2017 | 10h30

Veloz. Caótico. Imprevisível. Quando a CEO de uma das mais respeitadas empresas de recrutamento e desenvolvimento de profissionais do Brasil define dessa forma o mercado de trabalho do século XXI, jovens prestes a ingressar na universidade fazem bem em ouvir o que ela tem a dizer. À frente da Cia. de Talentos – consultoria que completará 30 anos em 2018 –, Maíra Habimorad pode dizer que já viu e aprendeu muita coisa sobre relações profissionais e o mundo do trabalho. Mas mesmo ela sabe que, no ritmo em que esse mundo se transforma hoje, nenhuma bola de cristal é 100% confiável. O que pode ser motivo de apreensão para muitos, porém, pode ser visto como oportunidade. É o que a consultora ensina nesta entrevista, na qual reflete sobre competências socioemocionais, ética, a geração millennials e uma nova economia que, parece, veio para ficar.

Que habilidades serão valorizadas no mundo do trabalho do século XXI? Qual a importância das competências socioemocionais?

Importância absoluta. Hoje, o mercado busca um profissional que mostre resiliência, curiosidade, pensamento crítico, capacidade de colaboração e de resolução de problemas. Que saiba filtrar tantas informações disponíveis e fazer escolhas. Além disso, o universo do trabalho está cada vez mais imprevisível; portanto, saber se adaptar é fundamental. Seguindo essa lógica, as habilidades mais valorizadas no século XXI serão: orientação para resultados (alto nível de expectativa quanto às próprias metas); comprometimento (autodisciplina e envolvimento no que faz); liderança (capacidade de influência sobre outros, assertividade); orientação interpessoal (facilidade para construir relacionamentos positivos, interesse genuí- no pelo bem-estar do outro); adaptabilidade (capacidade de lidar com situações de pressão sem perder a calma e a autoconfiança, e de aprender rapidamente e aplicar essa experiência em novos desafios); e inovação (não conformidade com mais do mesmo, curiosidade, busca por novas soluções para problemas antigos).

No geral, escolas e universidades têm formado profissionais com essas habilidades? Se não têm, como isso pode ser feito?

As escolas e universidades não formam profissionais com essas habilidades. A realidade exige que eles estejam sempre em busca de autoconhecimento para desenvolver as habilidades que lhes faltam e potencializar aquelas que já possuem. O mercado de trabalho até tenta corrigir essa lacuna – prova disso é o tamanho do mercado de T&D (Treinamento e Desenvolvimento). Em 2016, por exemplo, o volume de horas de treinamento por colaborador, no Brasil, foi 33% superior ao registrado no ano anterior: subiu de 16,6 horas/ano para 22 horas/ano, em média, segundo levantamento feito pela ABTD1 . Mas, por mais que as empresas invistam em T&D, muitos aspectos comportamentais deveriam ser formados na base educacional, porque se torna difícil, depois, formar comportamentos como resiliência, por exemplo.

Existem características geracionais comuns à maioria dos millennials? Quais são e como são vistas pelo mundo do trabalho?

O estudo das gerações é algo importante, porque, apesar de termos uma individualidade, somos resultado de um coletivo influenciado por inúmeros fatores, como economia, política, educação, mercado de trabalho. Cada geração, então, é retrato desses fatores. Pode soar como generalização, mas há aprendizados importantes a se ter com esses estudos, como o de que millennials buscam um trabalho que faça a diferença no mundo – isso inclui desde algo com grande impacto social até algo que gere muito retorno financeiro ou sucesso. Além disso, eles estão buscando um equilíbrio entre vida pessoal e profissional; estão mais conectados com o aprendizado que ganham do que com cargo ou remuneração; e buscam estruturas menos hierarquizadas, com mais flexibilidade de horá- rio, vestimenta, atuações e inclusão de variados tipos de pessoa (diversidade racial, de gênero, idade, nível socioeconômico, etc.). Há também uma dificuldade de análise crítica sobre conteúdos, devido ao excesso de informa- ções; uma dependência da tecnologia para a construção de relacionamentos e de ideias; e uma ansiedade para as coisas acontecerem rapidamente. Isso traz alguns impactos, como dificuldade de concentração e a necessidade de fazerem várias coisas ao mesmo tempo, para se sentirem “úteis”, ou, então, uma postura mais passiva, porque se sentem entediados. O mercado de trabalho tem tentado direcionar suas estratégias de atração e retenção para atender às necessidades e preferências dos millennials, mas isso acontece em um ritmo diferente do que a geração espera. Ou, ainda, de uma maneira mais física (ambiente de trabalho) do que, de fato, estrutural, no modelo de negócio e de gestão de pessoas.

Qual a importância de valores como ética, consciência socioambiental ou respeito à diversidade?

São essenciais não apenas no universo do trabalho, mas na vida. A credibilidade profissional não se restringe a conhecimentos técnicos adquiridos e à competência na execu- ção de tarefas; é preciso ter caráter íntegro, que possa ser respeitado por todos que compõem a organização. Além disso, ter respeito pela diversidade é cada vez mais urgente. Cada vez mais as equipes de trabalho são compostas de pessoas de diferentes origens e culturas. Não podemos esquecer que estamos em um país com dimensões continentais – equipes compostas de pessoas de diversas regiões é realidade cada vez mais presente.

Fala-se de uma chamada “economia de projetos”, em que o profissional estabelece vínculos maiores com projetos pontuais do que com empresas. É um movimento irreversível? Quais os maiores desafios do modelo?

Acredito que seja um movimento irreversível. O maior desafio, a meu ver, talvez seja também a maior oportunidade: a capacidade de se transformar junto desse futuro do trabalho que estamos enxergando. Em um estudo global recente que realizamos, elencamos tendências que já estão presentes no universo do trabalho, alterando a forma como organizações e profissionais atuam. Uma delas, por exemplo, aponta que há forte questionamento dos vínculos de trabalho, e, impulsionadas por jovens profissionais, novas relações vêm sendo propostas. Observamos o freelancer cada vez mais como opção de carreira e não como trabalho temporário, por exemplo. A ascensão dos valores e repertório variado, como arte e cultura, para lidar com o caos, também farão parte do futuro do trabalho. O design, por exemplo, tem substituí- do a estratégia como forma de criar futuros e novos negócios. Tudo isso é oportunidade para novos modelos, novas ideias e realizações.