Outras vozes que narram o mundo

Outras vozes que narram o mundo

Colégio Albert Sabin

11 Janeiro 2016 | 10h52

“A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos, bons narizes, bem-feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. […] Parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles, segundo parece, não têm nem entendem em nenhuma crença.” – Carta de Pero Vaz de Caminha (1º de maio de 1500).

Por séculos, o que as crianças brasileiras aprendiam na escola sobre os povos indígenas do País refletia a primeira impressão de Caminha. Nossos índios eram retratados uniformemente como inocentes, saudáveis, em harmonia com a natureza, desprovidos de cultura ou ciência. A depender deles, o mundo encontrado pelos portugueses permaneceria o mesmo, sem transformações. Daí que, para todos os efeitos, a História do Brasil começava a partir de Cabral.

Os negros trazidos à força, décadas depois, tampouco tiveram direito a história prévia. Vinham da África, eram escravos, isso bastava: sua participação nos livros didáticos começava ali e resumia-se à luta pela liberdade. A reparação de tais equívocos está apenas no início, tendo como marcos as leis federais que incluíram as temáticas “História e Cultura Afro-Brasileira” (2003) e “Indígena” (2008) no currículo escolar, não como disciplina específica de uma série determinada, mas de maneira interdisciplinar.

Mais do que problematizar a aproximação entre nativos e colonizadores e entre colonizadores e escravos, a sociedade entendeu que é preciso devolver ao índio e ao negro suas identidades, além daquelas impostas pela perspectiva europeia (“nativos” e “escravos”). É preciso devolver a esses povos alguma agência na construção do Brasil.

“Por meio de livros como Menina Bonita do Laço de Fita, O Que Há de África em Nós e Kabá Darebu, de Daniel Munduruku, por exemplo, buscamos passar a mensagem de que diferente não é pior nem melhor, é diferente”, diz Dionéia Menin, coordenadora pedagógica da Educação Infantil e do Fundamental I. Segundo ela, o primeiro contato dos alunos com culturas de tradição africana e indígena na escola não se dá pelo viés histórico, mas por meio de livros e atividades que lhes apresentem personagens e costumes representativos dessas culturas.

livros do autor daniel munduruku

“Outro foco, nessa fase inicial, é a identificação com valores das culturas indígena e africana, como o respeito à natureza ou a importância da ancestralidade e da família”, diz Dionéia. Em um trabalho de Arte do 1º ano, por exemplo, professoras ajudam os alunos a confeccionar bonecos de pano que representem familiares, utilizando uma técnica de origem iorubá: são os abayomis, bonecos que mães africanas faziam com as barras das saias, para divertir as filhas.

“O 3º ano é dedicado ao Brasil antes de Cabral”, diz Luciana Vidal, assessora de História e Geografia. Para gerações acostumadas a uma escola que se limitava a perpetuar estereótipos no 19 de Abril, talvez surpreenda um ano inteiro de aulas sobre Pindorama (ou “terra das palmeiras”, como batizaram a costa brasileira os tupis-guaranis), em que os alunos aprendem palavras, hábitos alimentares, costumes e crenças, e assistem a uma palestra de Daniel Munduruku sobre o livro Coisas de Índio.

Mais adiante, os alunos têm a chance de aprender que “a história da África é muito maior do que a escravidão no Brasil”, como coloca Maria Isabel Fragoso, assessora de História do Fundamental II e Ensino Médio. Ela se refere às aulas sobre Imperialismo a partir do 8º ano, em que se percebe como a divisão arbitrária do continente africano em colônias, no século XIX, produz efeitos até hoje, em guerras civis que levam massas de refugiados a buscarem segurança nas próprias nações responsáveis pelos conflitos.

Também ajudam leituras como os livros do moçambicano Mia Couto ou do jornalista polonês Ryszard Kapuscinski, sobre as lutas por independência e anos pós-coloniais de diversos países africanos, que possibilitam conhecer outros pontos de vista e relativizar valores eurocêntricos, não apenas como forma de reparação com povos tradicionalmente oprimidos, mas, principalmente, como lição para que as novas gerações jamais ignorem a diversidade de vozes que contam a história do mundo.