O fazer teatral como prescrição contra o tédio e a apatia

Colégio Albert Sabin

21 Setembro 2017 | 11h30

Devo confessar que iniciar este texto não foi uma tarefa fácil, apesar de saber exatamente sobre o que gostaria de refletir: como uma geração de jovens, com um universo no qual há maior liberdade sexual e maior capacidade de expressão, com acesso a todas as facilidades e oportunidades que a modernidade pode proporcionar, com conhecimento técnico-científico amplo, com domínio de idiomas, com uma rede quase ilimitada de possibilidades para projetos e desenvolvimento de carreiras, com extrema capacidade de manter-se conectada, mesmo que virtualmente, tem se demonstrado cada vez mais entristecida, solitária e desistente da luta, das grandes conquistas, e até mesmo da vida?

Será que está faltando a esta geração um sentido especial, que reflita seus anseios da alma, do coração? Cadê aqueles garotos que iriam mudar o mundo, tão bem retratados na canção Ideologia(1), interpretada por Cazuza? Ainda sobre essa canção e, traçando um paralelo com a nossa realidade, será que o que está faltando aos nossos jovens é uma ideologia, afinal, “seus corações estão partidos, suas ilusões perdidas e seus sonhos vendidos / seus ídolos mortos de overdose / seus inimigos assumiram o poder / seus prazeres são agora risco de vida / seus ‘sex and drugs’ não têm nenhum rock ‘n’ roll / pagam a conta do analista para não saberem quem verdadeiramente são e assistem a tudo de cima do muro?”.

Ao pensar no papel da escola diante destes fenômenos e, consequentemente, na minha responsabilidade como educador, outros motes integraram minha reflexão, agora muito mais direcionada à minha prática ao ministrar aulas de Teatro. Será que estou oferecendo um espaço aberto para que estes jovens possam dialogar e perceber que não estão sozinhos?  Tenho como garantir que este espaço seja livre, inspirador, motivacional, responsabilizador e multiplicador, além de efetivo no que diz respeito ao desenvolvimento e ao exercício das habilidades referentes aos relacionamentos sociais? Estabeleço uma relação de confiança com um exercício de liderança a ponto de me tornar referência? Será que estou dedicando atenção suficiente ao ensinar meus alunos a manifestarem suas emoções? Será que, diante de tais manifestações, estou reconhecendo seus pensamentos e discursos e intervindo a ponto de garantir um mundo muito melhor quando se tornarem adultos? Enfim, será que estou conseguindo mostrar para estes jovens que é possível alinhar sonhos, valores e formação?

A experiência que tenho vivenciado nas aulas de Teatro e que penso ser interessante compartilhar é que, por si só, a atividade teatral é um espaço aberto, que foge da rotina e permite ao aluno expressar-se de maneira diferenciada. Quando se faz Teatro, se convive, vive-se uma experiência única, que só ele é capaz de proporcionar, com regras e coordenadas muito peculiares. Há algo de excepcional em seus fundamentos, uma radicalidade que o torna especial, sagrado, profano, e que permite ao jovem revelar sua visão poética, utópica e dramática do mundo, de si e de seu semelhante.

Em total contramão da paralisia que o tédio produz, o Teatro centrifuga emoção, corpo e intelectualidade numa intensidade tal, que permite ao jovem conhecer, reconhecer, experimentar, desenvolver e controlar seus sistemas de percepção, seus mecanismos de captura de atenção, seus recursos de memória, suas produções de emoções e sentimentos e suas estruturas físicas. Teatro é uma grande vertigem transformadora que, após esse turbilhão de estímulos, devolve o jovem ao mundo real com novas forças e novos conhecimentos.

Aqueles que bebem da fonte do Teatro e o apreciam percebem que a efemeridade do tempo e a fugacidade da vida desaparecem. Surgem redes de significados que justificam o pertencer. Jorge Dubatti, em Teatro dos Mortos, introdução a uma filosofia do teatro afirma que, “diante da experiência teatral, surge o desejo de que ‘não termine’ e, depois de terminado, o desejo de revê-lo, de religar-nos com esse tempo outro, embora haja consciência de que a conexão será diferente daquela primeira e de que esse tempo já não será mais o mesmo, pois se tratará de outro acontecimento, com sua própria zona de experiência, diferente daquela que acabamos de atravessar.(2)

O jovem comprometido com o fazer teatral apreende que cada experiência é única e que sua participação é o que definirá o sucesso ou o fracasso de um processo. No fundo, tal processo se opõe, e muito, às tendências da desistência e do distanciamento características do adolescente diante dos obstáculos. Nessa perspectiva, ele é levado a perceber que nada será tempo perdido, mesmo ante os maiores insucessos. Estar presente no processo de construção teatral, em acordo ou desacordo, total ou parcial, já significa construir, o que já é uma grande oportunidade para se manter vivo e atuante.

Se o Teatro propõe a vida, também não deixa de se aproximar da morte. É impossível negar seu caráter de encerramento, de conclusão e finitude. O jovem, ao praticar Teatro, terá de enfrentar processos de luto e o constante sentimento de perda, do grupo, dos integrantes que o compõem, do espetáculo, das cenas, das personagens, do espaço… Ao vivenciar esses sentimentos, o adolescente consegue compreender a implacável passagem do tempo e seus fascinantes artifícios no processo de evolução. Sua memória é preenchida com recordações repletas de sentimentos e sua trajetória na existência humana passa a ser escrita com significativa importância. Ao se deparar com a possibilidade finita que tem o Teatro, seu praticante ousa, se arrisca, desfruta, se beneficia e concretiza seus impulsos. Quem se sente contagiado pelo Teatro sabe seu devido valor e busca compartilhar sua essência com os outros, pois impera em si o sentimento de “ser” o próprio Teatro, em toda sua plenitude, complexidade e amorosidade. Por consequência, aprende a admirar, contemplar e prestigiar o outro “fazedor” teatral.

Quando se fala em questões sociais, políticas e econômicas no Teatro, o jovem se identifica, deseja fazer parte da História, alimenta seu pensamento crítico e se engaja nas importantes batalhas contra as injustiças, os preconceitos e as grandes questões de sua geração, de seu grupo, de sua sociedade. Com o tempo, ele passa do papel de espectador para agente de transformação. Mesmo diante das contradições noticiadas diariamente a seus ouvidos e retinas, é perceptível que ali está um jovem com esperança, crítico e vibrante.

Jorge Dubatti destaca que “um acontecimento teatral excepcional torna-se um marco na história pessoal do espectador e é lembrado pelo resto da vida como um momento de grande intensidade existencial.(3) Pensando nesta premissa, se para o espectador o Teatro possui tal efeito, para o jovem que o pratica significa estar sempre pronto para adentrar a cena, contribuir com o espetáculo e repousar nas coxias da vida, feliz por ter sido quem se poderia ser.

Pablo Picasso(4) tinha total razão ao afirmar que, para tornar-se jovem, era preciso muito tempo. Logo, não podemos deixar que o clima de luta contra o tempo se instaure em nossas escolas, da mesma forma que ocupou nossa sociedade. Como educadores, é a nossa obrigação não permitir que nossas crianças e adolescentes formem suas personalidades em universos nos quais sempre se está atrasado, em débito, em que o clima vigente é o da falta de esperança, de saídas, de sonhos, de sentido, de magia.

Nós, adultos, pais, educadores, família e sociedade devemos sair à luta junto a nossos jovens, oferecendo-lhes caminhos pautados na esperança. Nesse sentido, posso assegurar que o fazer teatral tem sido um dos bons espaços de convivência e aprendizado para jovens, no qual sonhos, valores e formação se alinham de forma a construir seres humanos mais felizes.

Se a juventude é sinônimo de escolhas e definições, a escola que oferecer oportunidades de seus educandos flexibilizarem seus estudos e desenvolverem suas paixões terá, cada vez mais, alunos protagonistas que sabem como ajustar seus sonhos e expectativas e, consequentemente traçarem seus projetos de vida com maior segurança.

Rubem Alves foi muito feliz em afirmar que as escolas não podem “ensinar o voo, porque o voo já nasce dentro dos pássaros”(5). Mas o voo pode ser encorajado. Sendo assim, o fazer teatral pode ser um ótimo encorajamento para estes meninos e meninas alçarem seus voos. Com certeza, mais feliz e realizada será a escola que oferecer tais voos, pois um dia seus pássaros, cheios de gratidão, realizações e felicidade, voltarão aos seus galhos.

Ricardo Sonzin Junior

Professor de Teatro e Assessor de Cultura do Programa Sabin+Esporte&Cultura.

Referências

(1) – Ideologia, canção composta por Roberto Frejat e Cazuza. Trata-se da faixa título do terceiro álbum solo de Cazuza, 1988.

(2) e (3) – DUBATTI, Jorge. El teatro de los muertos: introducción a una filosofía del teatro, 1ª Ed, São Paulo, SESC/SP, 2016.

(4) – Pablo Picasso (1881-1973), artista espanhol, destacou-se em diversas áreas das artes plásticas: pintura, escultura, artes gráficas e cerâmica. É considerado um dos mais importantes artistas plásticos do século XX.

(5) ALVES, RUBEM, Gaiolas ou Asas, A arte do voo ou a busca da alegria de aprender. Porto, Edições Asa, 2004.