Não existe só o meu jeito

Colégio Albert Sabin

21 Agosto 2017 | 09h55

Todos os dias somos surpreendidos por notícias que nos revelam fatos ocorridos por intolerância.

Ser intolerante não é apenas discordar, é impedir que outros se manifestem de maneira contrária à sua opinião, é não ter amadurecimento para compreender as diferenças de pensar, de agir e de ser. É negar a oportunidade ao outro de mostrar sua compreensão de mundo. É discriminar o diferente, diminuindo-o e subjugando-o por meio da violência.

Tolerar não é negar-se, não é deixar de lado suas convicções, mas sim é aceitar e compreender que temos crenças, orientações sexuais e culturais diferentes. É entender que podemos conviver e manter um diálogo, apesar das diferenças.

Tolerar vem do verbo tolere (em latim) e significa “carregar”, “suportar”, “resistir”. Portanto refere-se à vida em sociedade, com nossas diferenças e divergências. Nesse sentido, reconhecemos nos outros o direito de pensar o que pensam, de ser o que são, de fazer o que fazem. Temos e damos a liberdade de praticar sua religião, de se vestir de outra maneira, de comer o que quiser. Estamos falando de respeito. Isso significa que qualquer pessoa possa ter uma vida confortável diante de suas próprias convicções e costumes.

A intolerância, ou a tolerância, é um traço comum da humanidade em todas as épocas históricas. Esse conceito também possui uma história, não constitui a mesma ideia entre os antigos romanos e a Europa Moderna, da mesma forma não possui o mesmo significado entre os séculos XVI e o mundo do século XXI.

No século III a.C., na Índia, o imperador Ashoka assume o poder e governa o território Máuria que hoje corresponde a Índia, Paquistão e grande parte do Afeganistão. Intolerante, o imperador manda matar seus rivais e conquista territórios impiedosamente até que, após uma dessas batalhas, se espanta diante dos cadáveres e do excesso de sangue. Percebe que não tem o direito de provocar tanto sofrimento e muda radicalmente, tornando-se pacífico e tolerante. A partir desse instante, dedica-se a promover a paz entre as pessoas e as religiões, afirmando que devemos nos respeitar e ouvir os outros.

As várias civilizações da Antiguidade tinham religiões, hábitos, maneiras de pensar e regras de vida diferentes entre si, mas quando vinham de longe eram bem recebidas, honradas, porque a regra da hospitalidade era praticada por todos. A tolerância ao receber pessoas com culturas e hábitos diversos contribui para evitar relações tensas com aqueles que pensam e vivem diferentemente de nós. A proximidade e o convívio constantes entre culturas promovem a tolerância e o respeito.

Voltaire, filósofo do Iluminismo, em sua obra “Tratado sobre a Tolerância por ocasião da morte de Jean Calas”, publicado em 1763, nos conta a história de um comerciante da cidade de Toulouse, no sul da França, que era protestante, e a maioria da população, católica. Numa noite, seu filho, Marc-Antoine Calas, foi encontrado morto, enforcado num cômodo da casa dos pais.

Marc pretendia converter-se ao catolicismo, mas antes que houvesse a possibilidade de uma investigação sobre o fato, o pai, Jean Calas, foi preso e acusado de matar o próprio filho.  Jean Calas foi condenado e executado num processo parcial.  O fanatismo religioso provocou sua morte. Posteriormente, constatou-se que seu filho havia se suicidado porque era depressivo.

Voltaire reabilitou Calas, embora já estivesse morto, e destacou que a razão e a Filosofia nos ajudam a sair da cegueira e do ódio provocados pela intolerância.

Quando os seres humanos valorizam a fraternidade, o respeito e a máxima de não se fazer aos outros o que não desejamos para nós mesmos, os desacordos, as diferenças não se anulam, ao contrário, convivem sem que se proclame uma única verdade.

A tolerância é uma atitude diante da vida, e o saber lidar com as diversidades culturais, sexuais, religiosas. Em tempos de globalização, num mundo multicultural, com encontros mundiais e o cosmopolitismo, o convívio com o diferente é a marca do nosso cotidiano. Num mundo em que predomina a universalidade, a compreensão e o compartilhamento da existência promovem uma reflexão: não existe só o meu jeito.

Maria Isabel Pedroso Fragoso

Assessora Pedagógica de História.