Juventude(s) e escola: diálogo necessário

Colégio Albert Sabin

15 Maio 2017 | 10h03

Falar em juventude acarreta provocar representações que são lançadas sobre o tema. Por um lado, as características associadas à juventude, do ponto de vista estético e da imagem relacionada ao vigor e entusiasmo, são modelos que pautam muitas vezes os parâmetros do universo adulto. Muitos enaltecem o “padrão juvenil” como exemplo a ser seguido. A juventude transformou-se e constituiu-se como ideal social. O corpo bem cuidado, a saúde, a possibilidade de sucessivos recomeços afetivos e profissionais são inspiradores de modelos e valores associados aos jovens. Prevalece uma espécie de conversão do humano em formato juvenil.

Essa representação sobre a condição juvenil suscita compreender a juventude como uma possibilidade de se viver esta etapa de uma forma diferente da que foi experimentada por gerações anteriores: “a infância quase desapareceu e a juventude se prolonga até depois dos trinta anos” (ABAD, FRUTAS, CARVALHO, 2003, p. 22).

Para Kehl (2004, p.89), por exemplo, é difícil precisar o que é juventude. Hoje em dia, “o conceito de juventude é bem elástico: dos 18 aos 40 anos, todos os adultos são jovens. Passamos de uma longa juventude direto para a velhice, deixando vazio o lugar que deveria ser ocupado pelo adulto”.

Por outro lado, não é raro encontrar posições que traduzam o jovem como alguém inconsequente ou como um ser em construção. No levantamento de definições sobre o tema, Spósito (2005, p.89) configura o conceito de juventude como “a fase da vida em que se inicia a busca da autonomia, marcada pela construção de elementos da identidade pessoal e coletiva”.

Porém, o termo juventude não é capaz de traduzir as inúmeras especificidades e idiossincrasias características desse momento de transição. As experiências, nessa linha de raciocínio, precisam ser interpretadas de maneira individual e reconhecidas como trajetórias que não necessariamente compõem um padrão único.

Dessa forma, é recomendável que se entenda o conceito de juventude em seu plural, sustentando a ideia de juventudes, marcando a heterogeneidade de maneiras de ser jovem e de ocupar os espaços na sociedade atual.

Essa noção de enxergar o jovem como multifacetado e não único rompe com o imaginário que marcou a forma de interpretar essa fase da vida. Uma das imagens mais enraizadas é aquela que compreende a juventude como algo a “vir a ser”, como apenas uma transição para o mundo adulto.

Em outra perspectiva, a juventude aparece como uma fase para saborear a exuberância da liberdade, momento sem grandes responsabilidades que sugere a possibilidade de experimentações, encarado como período possível de “acertos e erros”, caracterizado por um hedonismo reinante e por uma flexibilização na aplicação de sanções dirigidas a comportamentos tidos como transgressores e intrínsecos aos jovens.

Há também a percepção de que a fase é constituída como um período de crise, tensa e recheada de conflitos com a autoestima, ocasionando, muitas vezes, o distanciamento da convivência familiar e arranhando valores até então enraizados.

De qualquer modo, pretende-se realçar que todos os “modelos” descritos pressupõem uma visão sobre o jovem como alguém que está em teste, que ainda não atingiu o padrão que futuramente a sociedade espera que ele incorpore.

É fato que existe um “caráter universal” presente nas transformações emocionais e físicas específicas dessa fase da vida. No entanto, é preciso ressaltar que não existe um único tipo de juventude, mas juventudes, pois cada indivíduo ou grupo constrói sua história a partir de suas experiências e do contexto social e cultural em que está inserido.

Nesse sentido, este período da vida não implica ser somente a antessala do mundo adulto, tampouco sua evolução se dará em um formato único e linear. Precisa ser entendida, de acordo com Melucci (2001, p.95), como uma fase constituída de “mudanças do corpo, dos afetos, das referências sociais e relacionais”.

Este artigo pretende, portanto, reforçar a importância de associar a imagem da juventude a algo em permanente mudança, e tenta captar, conforme Dayrell (2007, p.2), “esse novo modo de ser jovem, expressão das mutações ocorridas nos processos de socialização” recentes.

Hoje, por exemplo, percebe-se que a mobilização da juventude se expressa de forma “plural, dispersa e fragmentada” (GIL, 2012, p. 2), dirigida a um fato específico e articulada por intermédio de redes que se reúnem a partir de interesses concretos e, por vezes, imediatos.

No percurso de identificar novas formas de expressar o protagonismo juvenil, destacam-se os apontamentos de Novaes (2000) e Vital (2005), ao revelarem que os jovens, a partir das redes, constroem identificações parciais ou massivas, em que são capazes de manifestar insatisfações, propor sugestões sobre os assuntos investigados, além de sugerir formas não convencionais de atuação coletiva.

Esses novos formatos de participação, assim como os temas decorrentes desse novo contexto, devem ser acolhidos pela escola e seus educadores. Compreender as formas, as demandas e os estilos mobilizadores dos jovens atuais estabelece uma ponte necessária para o diálogo entre a juventude e a escola.

O fato de não captar os novos sinais de participação compromete e torna reduzido o diagnóstico sobre a juventude. Ao insistir e se concentrar exclusivamente em expressões clássicas de mobilização juvenil, como a reativação de grêmios estudantis, por exemplo, hoje sem o mesmo apelo e impacto de outrora, corre-se o risco de se estabelecer a impressão de uma certa apatia e de falta de participação dos novos agentes.

Torna-se imperativo, portanto, conforme Dayrell (2007, p. 13), que a escola assista a “um ruir de seus muros, tornando-se mais permeável ao contexto social e suas influências” – do contrário, as tensões na relação entre juventude e escola tendem a se amplificar – e que investigue o papel e o sentido conferidos pelos estudantes à instituição de ensino, preocupando-se em relacionar a vivência escolar aos projetos de vida idealizados por eles.

Novas indagações são apresentadas: existe correlação entre a vivência escolar e o que mobiliza os jovens na construção de suas escolhas de vida? Além disso, será que a escola contribui para estimular o interesse dos estudantes pela capacidade de interpretar o mundo e pela participação social?

A escola, conforme Dayrell (2011), deve contribuir para nortear as reflexões e possibilitar um contorno das questões que abrangem tais dilemas de existência, visto que os jovens são agentes singulares para a obtenção de pistas sobre o entendimento a respeito do universo escolar.

Laércio Carrer

Coordenador pedagógico do Ensino Fundamental II.

Mestre em Educação pela Unifesp e graduado em Ciências Sociais pela USP e em Pedagogia pelas Faculdades Integradas Campos Salles, Laércio Carrer é especialista em Orientação Vocacional e Adolescência, cursos de pós-graduação organizados pelo Instituto Sedes Sapientiae.

REFERÊNCIAS

ABAD, Miguel; FRUTAS, Virgínia; CARVALHO, Miguel. Políticas Públicas, Juventude em Pauta. 1ª ed. São Paulo: Cortez, 2003.

DAYRELL, Juarez. O jovem como sujeito social. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 24, p. 40-52, set/out/nov/dez. Editora Autores Associados, 2003.

DAYRELL, Juarez. A escola “faz” as juventudes? Reflexões em torno da socialização juvenil. Educ. Soc. [online]. 2007, vol.28, n.100, pp.1105-1128.

GIL, Carmem Zeli de Vargas. Participação juvenil e escola: os jovens estão fora de cena? Revista Última Década. Santiago, v. 20, n. 37, dez. 2012.

KEHL, Maria Rita. A juventude como sintoma da cultura. In Novaes, R.; Vannuchi, P. (Orgs.). Juventude e sociedade: trabalho, educação, cultura e participação. São Paulo: Perseu Abramo, 2004.

LEAO, Geraldo; DAYRELL, Juarez Tarcísio and REIS, Juliana Batista dos. Juventude, projetos de vida e ensino médio. Educ. Soc. [online]. 2011, vol.32, n.117, pp.1067-1084.

NOVAES, Regina. Juventude e participação social: apontamentos sobre a reinvenção da política. In: ABRAMO, Helena Wendel; FREITAS, Maria Virgínia; SPOSITO, Marília Pontes (orgs.). Juventude em debate. São Paulo: Cortez, 2000.

SPÓSITO, Marília Pontes. Algumas reflexões e muitas indagações sobre as relações entre juventude e escola no Brasil. In: ABRAMO, Helena Wendel; BRANCO, Pedro Paulo Martoni. Retratos da Juventude Brasileira. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2005.

VITAL, Cristina. A juventude de hoje: (re) invenções da participação social. In: THOMPSON, Andrés (org.). Associando-se à juventude para construir o futuro. São Paulo: Petrópolis, 2005.