Aprender fazendo

Aprender fazendo

Colégio Albert Sabin

18 Setembro 2017 | 10h00

Estratégias de planejamento e condução de aulas colocam a criança no centro do aprendizado.

Bolo de rolo. Sombrinhas coloridas. Um frevo tocando no aparelho de som. Uma bandeira em que figuram uma estrela, um arco-íris, um sol e uma cruz. No início do ano, acompanhar as aulas do Maternal I do Colégio AB Sabin era como embarcar numa viagem a Pernambuco. Em vez de lembrancinhas e comidas típicas, porém, o que os alunos trouxeram de volta na bagagem foram aprendizados – e não apenas sobre a cultura e a história pernambucanas.

Parte de um projeto mais amplo batizado de Culturas de Lá e de Cá, implementado em todas as séries do AB Sabin – cada uma com “destinos” diferentes –, as aulas foram planejadas para ter uma abordagem interdisciplinar, usando o tema da viagem como mote, uma fonte de experiências concretas geradoras de novos conhecimentos diversos: gastronômicos, musicais, matemáticos, linguísticos. Ao prepararem bolos de rolo na cozinha do Colégio, por exemplo, os alunos se viam lidando com conceitos matemáticos básicos, como quantidade (“vamos pôr mais farinha?”) e formas geométricas (“essa fatia de bolo é redonda ou quadrada?”). Já as sombrinhas de frevo e a bandeira de Pernambuco eram tanto símbolos culturais como recursos para apresentar as cores azul, amarela, verde e vermelha. O mesmo valia para os “viajantes” das outras séries, que “visitaram” países como Itália e França (Maternal II) ou Turquia e China (Pré I).

O projeto é exemplo de uma modalidade organizativa – uma forma de organizar os conteúdos trabalhados – que reflete a proposta pedagógica tanto do AB Sabin como do Sabin para a Educação Infantil. Além da interdisciplinaridade, as aulas do segmento costumam ser planejadas de forma a criar um espaço de descobertas orgânicas: o aluno se sente menos um ouvinte/observador passivo do que a professora tem a dizer/mostrar, e mais um investigador ativo dos temas trabalhados. Nesse espaço, conceitos como situações-problema, formulação de hipóteses e valorização de saberes prévios (“Quem já ouviu falar da China? Ah, seus avós são de lá? Bacana, o que você pode contar para seus colegas?”) colocam os alunos no centro do aprendizado.

Não são conceitos recentes; alguns tendo sido postulados por teóricos da Educação há muito tempo. Já no século passado, por exemplo, o pedagogo americano John Dewey (1859-1952) promovia a aproximação de teoria e prática – o “aprender fazendo” – como forma de tornar o aprendizado mais significativo e eficaz. Entretanto, como informa Suzy Vieira, coordenadora pedagógica do AB Sabin, ainda há muitas escolas no Brasil que utilizam um modelo de ensino expositivo, fragmentado em disciplinas e protagonizado pelo professor.

“Porque sair da zona de conforto não é fácil”, diz Suzy. “Requer aprofundamento de gestão, planejamento complexo e, ao mesmo tempo, uma abertura para o não planejado”.

À primeira vista, uma roda de contação de história poderia ser um dos momentos de maior passividade dos alunos diante da professora (“Agora todo mundo quietinho para ouvir a história.”). Não é nem de longe o que acontece no Sabin e no AB Sabin. Como explica Dionéia Menin, coordenadora pedagógica da Educação Infantil do Sabin, toda atividade de leitura compartilhada envolve uma pré-leitura. “A professora sempre convida a turma a examinar o livro antes. ‘O que vocês acham dessa capa? Que história acham que é? Alguém já ouviu falar desse personagem?’”, exemplifica Dionéia.

A estratégia cumpre algumas funções: incentivar o interesse de todos na atividade, valorizar o que cada um traz para o grupo – essencial para que eles se sintam agentes do processo – e balizar a avaliação. “Se eu desprezo o saber prévio deles, não tenho como comparar o que eles construíram de novos conhecimentos”, diz a coordenadora.

Mas promover a participação ativa da turma também exige flexibilidade na condução das aulas. “No início do ano, a turma do Pré II estava estudando aves, e num dia um aluno trouxe de casa um jogo relacionado ao tema”, diz Suzy Vieira, do AB Sabin. “A professora não teve dúvidas: saiu do planejado para aquele dia e incorporou o jogo na aula”. Por outro lado, diz a coordenadora, planos não podem ser descartados de todo; há expectativas de aprendizagem a se atingir, ainda que os alunos demandem da professora antecipar conteúdos previstos para mais tarde ou lidar com novos conteúdos. Preservar os objetivos da série, valorizando o centro de interesse dos alunos, é o desafio.

“Não é simples, mas é muito mais rico, porque cria uma atmosfera de valorização do conhecimento desde cedo, que vai além do currículo básico”, diz Mônica Mazzo, diretora do AB Sabin.

Vai além, também, da divisão do conhecimento em disciplinas. Mais que uma estratégia didática, a interdisciplinaridade decorre da visão do aprendizado como uma construção de conhecimento a partir de experiências concretas com o mundo. “Um mesmo tema gerador dá margem para diversos questionamentos”, diz Dionéia Menin. O conto da Chapeuzinho Vermelho, exemplifica a coordenadora, motiva descobertas de linguagem, mas também de Matemática (“Quantas frutas amarelas tem na cesta da Chapeuzinho?”), de Ciências (“Quem sabe quais dessas frutas têm sementes?”), de Alimentação (“Vamos experimentar?”), etc.

O mesmo raciocínio vale para as aulas sobre Pernambuco do Maternal I do AB. “É importante salientar que, mesmo que uma aula específica seja de Linguagens ou de Natureza e Sociedade, a professora e nós, gestoras, estaremos sempre olhando para todas as oportunidades de aprendizado. Pois, cada vez mais, procuramos utilizar formas diferentes de construir o conhecimento em sala de aula, aprendendo de maneira colaborativa, potencializando competências e desenvolvendo novas habilidades”.