O nazismo tropical e a execução dos nossos estudantes
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O nazismo tropical e a execução dos nossos estudantes

Newton Campos

29 Janeiro 2013 | 15h39

Nosso nazismo é outro. Como quase tudo mais no Brasil, nosso nazismo também é incompetente e amador, displicente e circense. Subjuga-nos pela malandragem e não pela imperialidade. Um nazismo tropical.

Em nossas câmaras de gás* morremos dançando e cantando, idiotizados ao tentar esquecer (ou ignorar) a realidade que nos é imposta diariamente pelos líderes medíocres, omissos ou corruptos que infestam nossas empresas e nossos órgãos públicos.

Câmara de gás no campo de concentração de Dachau - Foto: Alexander Gorlin (Flickr)

Câmara de gás no campo de concentração de Dachau – Foto: Alexander Gorlin (Flickr)

Meu pai sempre me disse: “não importa se o que você fez foi por incompetência, omissão ou desonestidade, alguém arcará com as consequências de qualquer forma”. Levei alguns anos para entender a frase: errar faz parte da vida, mas as consequências da mediocridade se igualam às consequências da omissão ou da bandidagem.


Ou seja, não temos alternativa, ou damos sempre o melhor de nós mesmos nas atividades em que nos envolvemos – e tentamos errar o mínimo possível – ou podemos provocar consequências nefastas, similares às de um ato de burrice, preguiça ou bandidagem.

Essa é a hora do assistente da banda virar homem e dizer: “acendi sim, e confesso que não imaginei as consequências desse ato.” (certamente ele não esperava matar ninguém).

Essa é a hora do dono da discoteca virar homem e dizer: “instalei sim o teto acústico inflamável por ser mais barato e confesso que não imaginei as consequências desse ato.” (certamente ele não esperava matar ninguém).

Essa é a hora do fiscal da prefeitura de Santa Maria virar homem e dizer: “fiscalizei mal sim ou aceitei (ou exigi) um suborno sim para fazer vista grossa e não imaginei as consequências desse ato.” (certamente ele não esperava matar ninguém).

Foi a consequência combinada de seus atos que, seja por incompetência, omissão ou desonestidade, asfixiou e matou centenas de pessoas. E todas estas pessoas mortas merecem esse respeito, um ato aparentemente simples de coragem e cidadania. Não merecem jamais as palavras vazias e as desculpas esfarrapadas que já começam a brotar nos laudos policiais.

Em nosso nazismo tropical, ao invés de marcharmos forçados, maltratados e subjugados às câmaras de gás, nós o fazemos voluntariamente, e em todo o país, a locais iguais ou piores do que a Kiss.

Nossas estradas são ruins, nossos hospitais são ruins, nossas universidades são ruins e até o ar que respiramos é ruim. Tudo está paradoxalmente mal desenhado, mal fiscalizado ou corrompido para nos matar em cada esquina, em cada hospital e em cada mordida. E aceitamos estas imposições.

Ora, se ladrões notórios como Renan Calheiros, Jader Barbalho e Paulo Maluf podem rir às nossas custas, protegidos por uma população idiotizada – que continua votando neles – e por sistemas políticos e judiciais putrefatos, porque não também o fiscal incompetente, omisso ou corrupto de uma prefeitura gaúcha?

Tenho certeza que esses profissionais incompetentes, omissos e corruptos, instalados em governos e empresas, e hoje impunemente surfando na onda do crescimento brasileiro, pensam que seus atos não têm efeito muito maior do que alguns bons dólares em seus bolsos e um monte de serviços e produtos mal entregues (sendo estes serviços e produtos públicos ou não).

Na realidade, bandidos como estes fazem escola, compondo uma espécie de partido nazista brasileiro, um partido não registrado e confortavelmente anárquico, protegido por uma cultura nacional de cordialidade submissa e festividade animalesca.

Matam-nos diariamente e aos poucos, não só pelos seus exemplos nada exemplares, mas principalmente pelo arraigo da mediocridade e da desonestidade implícitos e impostos em suas formas de viver e dominar.

Ainda no frescor da tragédia, já parece ser que ninguém vai assumir sua culpa ou parte de culpa no episódio. Todos os advogados irão explicar direitinho aos seus clientes como fazer para escapar desta com o uso de palavras inócuas.

Na verdade, apenas copiarão o mesmo modo de falar dos nossos líderes incompetentes, omissos e desonestos, hoje encontrados em todas as cidades, empresas e órgãos públicos do Brasil e da América Latrina, como ratos no esgoto. Ratos que existem em tal quantidade, que nem mesmo um Maracanã superfaturado lacrado seria suficiente para acolhê-los e asfixiá-los.

Espero apenas que nossos prefeitos, governadores e ministros honestos apoiem com mais veemência nossos fiscais públicos honestos, tendo a certeza de que a luta pela emancipação moral é coletiva e vale a pena. Salvará vidas.

E que apenas alguns destes jovens que hoje frequentam estas câmaras de gás pelo país afora se tornem políticos e empresários honestos e preparados, não só para evitar outras tragédias deste tipo, mas principalmente para evitar que sigamos sendo subjugados por este verdadeiro nazismo tropical por mais tantas décadas.

* É difícil fazer referência às câmaras de gás realmente usadas pelos nazistas da segunda guerra mundial, que chegavam a assassinar até 2,000 pessoas por uso (não por dia). Entretanto, se somarmos a quantidade de mortes causadas por políticos e empresários incompetentes, omissos ou desonestos que aceitamos seguir em nosso país, certamente poderemos calcular uma cifra diária de mortos bastante alta também.

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