Minha primeira aula por WhatsApp
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Minha primeira aula por WhatsApp

Newton Campos

09 Dezembro 2015 | 19h37

Desde que descobri o WhatsApp há cerca de 5 anos me perguntava se seria possível dar uma aula assíncrona para adultos utilizando a ferramenta. Lembrando que em cursos no formato semipresencial tendemos a classificar as interações entre alunos e professores como síncronas (ao vivo, presencial ou online) ou assíncronas (fóruns de debate ao longo de horas ou dias).

Pois bem, há poucas semanas, finalmente consegui estruturar parte de um curso através da ferramenta. Foi um módulo de um curso de Intraempreendedorismo para uma das principais e mais inovadoras empresas do país. “- E então?!? Funcionou ou não funcionou?” todos me perguntam. “Depende,” e esta tende a ser sempre uma boa resposta. Principalmente quando falamos de um experimento.

Um dos principais objetivos das aulas assíncronas num curso de média ou longa duração é permitir que o ambiente social de aprendizagem que foi construído no primeiro ou nos primeiros encontros presenciais se mantenha ou se aprofunde ao longo do tempo. Pense naqueles pratos de circo onde o malabarista tenta mantê-los girando. Num curso semipresencial, também chamado de blended na Europa ou híbrido nos Estados Unidos, os períodos presenciais se misturam com os períodos online, e as sessões online ajudam a manter girando os pratos da construção coletiva de conhecimento.

Como professor, não perdemos contato com os alunos e principalmente, eles não perdem contato com eles mesmos ou com o conteúdo do curso. Neste sentido, o WhatsApp funcionou muito bem, e 100% dos 32 alunos puderam emitir opiniões assertivas e fundamentadas sobre os textos que tiveram que ler e interpretar durante a sessão. Outra clara vantagem é que ninguém precisou ser treinado na ferramenta, pois 100% dos alunos já a utilizavam e dominavam com regularidade.

Com relação a estrutura e duração, por exemplo, defini que o grupo deveria estar ativo por três dias, de terça a quinta-feira no horário comercial, hora de Brasília. Como parte dos alunos não possuía computador, celular ou conexão de internet pagos pela empresa, garantimos assim que pelo menos a conexão no horário de trabalho poderia ser utilizada para fins educacionais. Desta forma, no total, estes três dias representaram de 3 a 5 horas de aula no formato presencial tradicional, dependendo da dedicação de cada aluno.

WhatsApp Desktop e Mobile

Com relação a presença, quem não realizasse pelo menos um comentário claramente refletido e que considerasse as opiniões já emitidas pelos demais alunos receberia falta. Surpreendentemente, ninguém “faltou.” Pelo contrário, os três dias se mostraram suficientes para que todos os 32 alunos participassem com uma média de 3,5 comentários cada. Ou seja, no total, cerca de 110 comentários de WhatsApp foram trocados no período de três dias.

Como consegui manter os comentários tão reduzidos em número? Estabelecendo e mantendo algumas regras de convivência. Defini algumas regras a favor da legibilidade do fórum como por exemplo: não fazer comentários curtos do tipo “bom dia, concordo ou rsrsrsrs,” publicar todo o comentário de uma só vez, num parágrafo de tamanho máximo equivalente a de 1 tela de celular, evitar críticas não construtivas sobre os comentários dos demais, etc.

Estas regras limitaram muito a participação e a interação do grupo, algo que eu flexibilizaria um pouco mais num segundo experimento. Não tenho medo de chegar às centenas de comentários mas tenho receio de que os alunos “atrasados” acabem perdendo o debate pela sobrecarga de mensagens. Mas aí acredito que a experiência poderia ser melhorada de alguma forma.

Vale ressaltar que instrui os alunos a instalarem a versão desktop do WhatsApp em seus computadores o que facilita muito a digitação (via teclado), ao invés do incomodo teclado do iPhone de onde escrevo este texto agora.

Como conclusão, posso dizer que a experiência foi extremamente enriquecedora pela praticidade e facilidade com que pôde ser explorada. Como “brinde,” ainda ganhamos um portal de comunicação extremamente funcional e agradável onde trocamos noticias sobre o assunto abordado no curso, mesmo depois de seu encerramento e de nosso retorno à rotina profissional pós-curso. E o uso da ferramenta é gratuito!

Como ouvi há pouco de uma educadora amiga minha aqui nos Estados Unidos onde tenho vindo constantemente para promover meu livro The Myth of The Idea“the new teacher’s role in education is to design learning experiences”. Adorei a frase que traduziria para algo assim como “o novo papel dos professores na educação consiste em orquestrar experiências de aprendizado.”

Será que os bons professores não tiveram sempre esta preocupação?

***

Para mais info (em inglês):
Twitter sobre assuntos relacionados a educação: @neweduca
Twitter sobre assuntos relacionados a empreendedorismo: @phdnew
Facebook: https://www.facebook.com/newton.campos.phd
Home Page: http://www.newtoncampos.com