Desabafo: Piaget e Vygotsky num Brasil em guerra.
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Desabafo: Piaget e Vygotsky num Brasil em guerra.

Newton Campos

09 Janeiro 2014 | 12h49

Semana passada, trocando correspondências com meu pai, recebi esta carta-desabafo. Há alguns anos, depois de aposentar-se como empresário, ele voltou-se para a vida universitária, terminando recentemente o curso de Geografia na USP.

Achei interessante compartilhar a carta com os leitores deste blog pois desde que retornei ao Brasil, há alguns meses, tenho recebido muitos desabafos deste tipo. Aqui vai:

“Filho,

Não vejo melhorias no Brasil. Vejo mudanças, mas não para melhor. Vivemos uma guerra civil não declarada, tanto em número de mortos – mais de 50 mil ao ano – quanto em precariedade de infraestruturas.

A educação é um desastre. Das aulas de pedagogia na USP, a melhor definição que ouvi sobre educação até agora foi a de um professor de colégio estadual: – Estamos em guerra. Todo dia preciso enfrentar batalhas e definir estratégias de guerra.

Na Faculdade de Educação da USP, quase só se fala da mesma coisa: Piaget e Vygotsky. Entretanto, o comportamento dos professores ali me pareceu similar ao encontrado nas escolas públicas onde estagiei. Parece haver um conluio entre professores e alunos: ambos querem evitar as aulas.

Jean Piaget e Lev Vygotsky num Brasil em guerra.

Jean Piaget e Lev Vygotsky num Brasil em guerra.

A realidade é que o ensino atual não agrada a uns e nem a outros. Seria apenas um jogo de faz-de-conta, se não fosse efetivamente uma guerra.

A única coisa que parece importar, já me o disse você em suas observações, é o diploma. Assim é que aos alunos só lhes interessa a prova e a nota, nada mais. Ao entregar as provas bimestrais numa turma de segundo ano do ensino médio, uma aluna surpreendeu-me:

– Professor, pode ler a prova para mim?
– Você tem deficiência visual?
– Não, professor, eu não sei ler.

O sistema não funciona. Aliás, nenhum sistema costuma funcionar no Brasil. Os alunos querem usar o celular – todos o possuem. E o colégio os proíbe, em vez de aproveitar as oportunidades tecnológicas e o interesse deles.

Eu também fui proibido, em 1963, a usar caneta esferográfica – era obrigatório o uso de caneta tinteiro, que não se podia apagar. Hoje as mudanças são muito mais rápidas. Fico pensando que, em 10 anos, os celulares estarão nas lentes dos óculos dos alunos. Em mais 10 anos, na córnea das pessoas.

Se queremos mudar o Brasil, precisamos arriscar, apostar nesse futuro global. Precisamos permitir e incentivar o uso de celulares e da internet na educação. Os alunos podem ensinar os professores, porque não?

Tenho observado crianças de 15 meses usando celulares sozinhas. Entram, navegam, jogam, procuram informações. E gostam. Não pedem chupeta. Pedem celular. Você vai ver, em breve, com seu filho.

Eu penso numa escola muito engraçada. Que não tenha teto, não tenha nada. Que cada um entre na escola de sua própria casa – ou de onde quer que seja. Que cada um navegue por onde deseje, pelos assuntos que lhe interessem, quando lhe for oportuno, ou necessário.

E que cada um faça suas próprias avaliações. Mas não existirão fraudes? Sim, sempre existiram e existirão. Mas cada dia será mais difícil burlar a individualidade dos equipamentos que estarão em sua própria córnea ou habilitados por suas características físicas.

Cada um buscará suas próprias avaliações e deixará isto registrado, automaticamente. Quando buscarmos um currículo, este apresentará o detalhamento de suas navegações e curiosidades, automaticamente. Cada um buscará os conhecimentos que lhe agradar, ou for oportuno, ou for necessário. Sinteticamente, cada um construirá seu histórico – seus conteúdos e avaliações. E poderá repetir o que quiser quando quiser – ora, até mantra precisa ser repetido!

O que diferencia o ser humano dos demais seres? Nas palavras de Carl Sagan (The Dragons of Eden): “O que nos difere dos demais tipos de vida é nossa capacidade de armazenar e transmitir conhecimento extra-somático.”

Em breve deveremos ter uma tomada conectada ao nosso corpo, implantada já ao nascer. E as bases de dados enciclopédicas do aprendizado mundial ficarão disponíveis a todos. Nos tornaremos seres online. Há esperança. Há esperança?

Beijos,

Newton Campos, o avô.”

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