Colocar dinheiro no sistema não é suficiente
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Colocar dinheiro no sistema não é suficiente

Newton Campos

20 Setembro 2012 | 06h34

Burocracias demais e neurônios de menos. Muitas vezes achamos que ao colocar mais recursos e dinheiro nas escolas melhoraremos automaticamente a educação das pessoas.

Acima: Típica sala de aula de uma escola pública espanhola - Foto de Leandro Giancola

Um dos assuntos mais importantes da semana aqui na Espanha foi um recente relatório da OECD (grupo dos países mais industrializados do mundo) que foi publicado mostrando as “mazelas” da educação espanhola (ver relatório, em inglês). A Espanha é o país desenvolvido do mundo que mais gasta com educação (euros por aluno), mas tem a população menos estudada, com a maior porcentagem de abandono escolar e de pessoas que trabalham em áreas fora das que estudaram.

Conclusão: os espanhóis gastam muito dinheiro com um sistema educacional ineficiente, que gera milhares de pessoas que não usam o que aprenderam na sociedade. Um pequeno exemplo, o sistema educacional espanhol gera milhares de advogados que jamais advogam.

Por causa da imprensa, muitos brasileiros acham que os espanhóis viraram pobres coitados vivendo em condições sub-humanas. Na realidade, mesmo com toda essa crise que há por aqui, o Brasil ainda levaria pelo menos uns 20 anos para atingir os níveis socioeconômicos da população espanhola.

Aqui não falta hospital, escola, estrada, ônibus, metrô, água nem esgoto para ninguém. Na verdade, sobram infraestruturas e serviços públicos. Na minha opinião, este é um dos principais motivos da crise: não há muito mais para ser feito (“construído”) por aqui, portanto não há trabalho pois há milhares de pessoas por aqui que só sabem construir casas e estradas (e muitas estão indo para o Brasil neste momento).

Esta semana, outro assunto aqui em Madrid foi o de um assalto horrível, onde os assaltantes assaltaram e atropelaram a vítima. A ambulância levou 19 minutos para chegar quando a taxa média é de 8 minutos. A mulher faleceu, possivelmente pela falta da ambulância a tempo. Estão acusando a prefeitura de ter diminuído o orçamento dos serviços de urgência por causa da crise e que algum político deveria pagar por isso. E é bem possível que algum funcionário público seja exonerado por causa disso. Aliás, já encontraram os assaltantes.

Mas voltando ao assunto, podemos aprender algo das falhas da educação na Espanha? Acho que sim. Sempre me perguntei por que nós, brasileiros, estávamos sempre comparando nosso país ao Canadá, à Suíça e à Suécia. Sempre achei essas comparações limitadas e limitantes.

Na área de educação, estamos sempre olhando também para a Coréia do Sul e Israel como referências. Não consigo imaginar algo mais inadequado – sociologicamente – que uma comparação entre o comportamento dos estudantes e professores coreanos e estudantes e professores brasileiros. Como vamos querer emular casos de sucesso de países sobre os quais não compartilhamos quase nada de sua cultura? Será possível “tropicalizar” suas inovações?

Afinal de contas, embora não lembremos muito, nós latinos somos todos um pouco descendentes “ideológicos” do antigo Império Romano e da sua posterior mistura com os muçulmanos mediterrâneos. Quase nunca nos lembramos disso, mas o Brasil é hoje a maior nação do mundo “descendente” do linguajar e “modo de viver” do antigo Império Romano.

Por este motivo, acho válido observar o desenrolar das políticas latino-europeias porque seus erros e acertos têm mais aderência à nossa realidade.

No caso da educação espanhola, para mim fica muito claro que apenas colocar dinheiro no sistema não resolveu seu problema. O sistema educacional espanhol apenas cresceu em volume e alcance, multiplicando o burocrático modelo do passado, sem aproveitar para avançar em novos objetivos e novas maneiras de chegar lá.

E aí fica um ponto para pensar sobre o dinheiro do pré-sal que esperemos que chegue à educação brasileira ao longo da próxima década. O que vamos fazer com este dinheiro? Multiplicar o falido modelo atual de educação onde as pessoas chegam à faculdade sem saber interpretar um texto? Ou aproveitar para redefinir o sistema educacional como um todo?

Nota adicionada em 21/Setembro/2012: Conforme artigo publicado hoje no jornal “El País” (ler artigo, em espanhol) o governo espanhol prepara a sétima grande reforma educacional da democracia moderna espanhola (pós Ditador Francisco Franco, 1892-1976). O objetivo é dar resposta aos fracos resultados do país em diversos relatórios internacionais e centralizar mais a decisão sobre os conteúdos das aulas tendo em vista que as regiões separatistas da Espanha estão aproveitando sua responsabilidade local na educação para impor seus idiomas e ambições políticas entre os jovens (uma bagunça histórica que não temos no Brasil). Entretanto, como observou bem o catedrático em pedagogia Francisco Imbernón (ler artigo, em espanhol), nada nesta lei ajuda a adequar o sistema educacional espanhol para os desafios do futuro, que debatemos tanto por aqui. Ou seja, parece que a lei já vai nascer ultrapassada.

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